É duro viver no fim de mundo? Não, por que seria? Você vive em um espaço de transição entre o começo e o fim. O quadro foi pintado dessa maneira. Não se questiona o artista. Tão pouco a arte. Em vida, trabalhou com o quê? Trabalhei com o que a maioria trabalha. Com delírios! Eu casei com um anjo na Terra. Como era o sorriso? Era felicidade. Entendo. Eu também já fui o fruto e a árvore um dia. Você pode ser grato, mas quanta verdade você suporta? Disse-me que uma nevasca selvagem partiu, como um raio, de suas entranhas. Somos o mover do seu sentir, seres inerentes à inconsistência, assim como um rio que lembra a forma movediça da areia. Disse-me: “Amo tudo e todos.” A sua criação mais especial não nasceu de meticulosa engenharia, mas de uma forma de desordem ainda incompreensível às nossas mentes. Pediu que confiássemos na caminhada, pois é inevitável: andamos a passos mortais na trilha para se tornar Deus. A partir dali, eu já não era mais criança. Entendi que cada um de nós é infinito dentro das próprias limitações. Meu medo perdeu a coragem, e a minha própria já não tinha propósito. Era tanta a liberdade que eu já não conseguia ver entraves, inimigos ou ameaças. Como havia beijado cada uma das mil bocas da verdade, existir já não era mais uma batalha. Estar aqui não significava mais correr. Tudo isso não passava de um vívido faz de conta. Um recado aos limites: o ralo contorno das suas curvas já não me seduz. Agora eu quero ver o sorriso de todas as faces da vida.