O canário e a onça

Para comemorar o noivado, um casal foi ao Castelão. Para o azar do noivo, o jogo não foi ao estádio.

Felipe e Odete marcaram presença em um jogo na quinta, mas quando o juiz apitou, o jogo não começou. O tempo parou no exato segundo em que o artefato dentro do apito vibrou para dar corpo ao silvo. O árbitro havia se reduzido ao simples cataclisma para esse apito. O vento já não se esfregava na grama, a luz não penetrava na neblina, ninguém torcia nem maldizia. E o apito cantando. A vida entrou em suspensão em plena quinta-feira. Felipe não era mais Felipe. Odete também não era mais Odete. Nem o canário e nem a onça testemunhavam mais nada com os seus sentidos. E o apito lá, cantando. Ele ainda chegou a futricar em outras coisas além da percepção. A grande área já nem era tão grande assim. A meia-lua se fechou por inteira e a linha de fundo não ficava mais no fundo de lugar nenhum. O campo havia sido comprimido inteiramente naquele apito. E ele lá, cantando. Já não importava saber quem era o camisa 10, o 9 ou o 7. O gol era só enfeite. Talvez nem isso, até porque demarcação nenhuma servia para coisa alguma. Já não havia regras com as quais conversar. E o bicho ali, cantando. Nada de impedimento, nada de escanteio, nada de falta, mas tudo de apito. Não teve intervalo. Não teve acréscimos. Não teve primeiro e nem segundo tempo. Nem tempo. Só apito. E por uma eternidade as arquibancadas daquele estádio enjaularam aquele apito. Até que a partida finalmente terminou.

Zero a zero.