Aqui, adultos parecem crianças, mesmo que, em média, todos sejam trinta anos mais velhos que eu. Salas de aula têm esse feitiço. Qualquer uma delas reduz um brutamontes a um pirralho, uma madame e uma moleca.
Quando me perguntam por que ensino, dou uma de coitado, mas não é por querer. É que, efetivamente, eu nunca fui bonito. Também nunca fui esperto. E eu sei que nunca vou ser nem um e nem outro. Agora, eu sempre fui curioso. E eu nunca vou deixar de ser, porque é mais que uma qualidade — é um vício.
Só que esse é apenas o primeiro motivo que me levou ao professorado.
Acredito que a ignorância nos une tanto quanto a nossa miséria, até porque a miséria não leva a nada, ao passo que a ignorância é o caminho da luz.
Agora, o segundo motivo foram as salas propriamente ditas (ou seja, não só seus encantos). Onde eu moro, só se vive bem como professor em apenas uma universidade. E aqui, todas as salas são climatizadas — graças a Deus, porque ontem passou dos quarenta graus. Amanhã é capaz até do asfalto sair da pista e ir buscar sombra.
Sabe, às vezes eu acho que o clima conduz uma campanha de extermínio contra certos bichos. Se não fosse meu emprego, não seria só a fome me empurrando pra cova. É por isso que eu acho que não venci na vida, pior: acho até que negocio minha integridade com as circunstâncias, mas apesar dos pesares, eu persisto.
Não é possível que um panda a mais nesse mundo não seja bem-vindo. Até pouco tempo fazíamos falta.