From: Aureliano Vargas <avargas.uni@yahoo.com.br>
To: Dante Gallieri <dantegallieri@gmail.com>
Date: Thu, 27 Aug 2009 13:29:00 -0300
Subject: Minha recomendacao

Dada a extensão do documento, vou resumir a introdução. Já adianto que será fácil navegar pelos tomos; entendê-los, porém, já serão outros quinhentos. Tome aqui um prólogo de mão beijada, como cortesia do seu velho orientador.

Talvez não lhe surpreenda que tudo comece da seguinte maneira: era uma vez um bode. Sua missão em vida, como ele próprio definiu, era servir. E servia a tudo, não importava o que fosse — gente, coisa ou ideia. Acima de seus chifres, tudo era mestre. É fácil pensar que essa subserviência poderia ser um fetiche, mas a verdade é que do bode jorrava uma fonte inesgotável de poder, e isso o levou a se tornar alvo da reptiliana vinda das fronteiras da realidade — uma entidade prevista pelas escrituras, naturalmente, mas você verá que ela não pode ser tida apenas como um fato cruel do destino. Cruzando então o inferno dos desertos e os inabitáveis gelados do Sul, essa criatura finalmente alcançou o bode, como era de se esperar. Seu tamanho e forma desafiavam qualquer limite imposto por nosso mundo, repelindo todos os mortais ou espectros que cruzassem seu caminho. De suas costas brotavam espinhos que desciam da corcunda até a ponta da cauda, perfurando a pele de couro ensanguentado que usava para se cobrir. Sua arma era um tridente de origem ambígua, já que nem todas as sutilezas da língua da profecia foram completamente decifradas pelos estudiosos — pega a deixa e faz teu nome. Só que, se havia algo implícito nos escritos, era a dor que aquele ser sentia ao empunhar esse garfo cósmico. Ainda assim, ela precisava cumprir seu destino — e o fez, cravando o tridente no peito do bode, deixando cair sobre ele todo o peso de seu corpo. Eis a surpresa: o bode, muito sereno, pousou as patinhas dele sobre a face pontuda do réptil e, apesar da rigidez dos seus cascos, conseguiu transmitir uma doçura que ela jamais havia experimentado em seu plano. “No fundo”, disse o bode, “você me entende, pois anseia pela liberdade de forjar as próprias correntes, como eu também pude”, e largou um beijo nela. Você beijaria a boca da sua assassina? Enfim, as palavras do bode atingiram sua nova companheira com a força de um machado, rasgando o tecido primordial que sustentava sua forma e conferia apetite à sua alma. Embora ambos tenham perecido há muito tempo, esse breve romance foi imortalizado nos contos — até que, enfim, viesse a ser adaptado nestes livros que anexei para seu deleite.

Lembrando que isso é só o começo.

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