E alguma vez eu neguei que era doida? Nunca neguei neguei que sou doida. Agora, não tenho direito de mudar? Não falo mudar de mudar mesmo — não necessariamente —, mas, pelo menos, priorizar outra coisa. É porque a Samara não tá com filho no bucho pra pensar isso. Não, não pode mudar. Não, não cola ser diferente do que se era ontem. Nunca colou. HA! Elas não sabem é de nada. Daqui pra Novembro eu vou parir duas crianças, uma mãe e uma outra mulher. Eu sei que tem gente que muda do nada, mas eu tenho motivo. Cadê as "titia sim, mamãe nunca"? Os valores se perderam mesmo. Mas imagine ser escrava dos próprios desejos? Ih, falou eu: a maconheira. Todo mundo tem- todo mundo toma umas gotinhas de hipocrisia durante a vida, o problema é que tem gente que toma igual mel. Quem me conhece sabe que eu não sou assim. Não é a toa que eu parei. E quem não tem consciência da própria sorte acaba ficando na mão dela. Eu tive sorte! Uma família liberal, não tão solta, não tão presa; aquele meio termo saudável, adoecedor. Mas meu pai é médico! Agora, ele sim sabe que droga é droga. Minha mãe não, minha mãe não sabe de nada. O que ela sabe é o que vê na internet — manda cada bosta pro meu telefone. Mamãe leu dia desses que maconha deixa a pessoa feia. Sabe o que deixa a pessoa feia? Nacionalismo. Enfim, tô falando isso porque eu tô cheia disso tudo. Já basta eu cheia EM tudo. Cheia no bucho, cheia nos peitos, cheia na boca — de desejo. Só que o o agouro não para! Eu não queria falar porque quando eu falo ninguém gosta. Quando eu falo, ninguém escuta, mas continuam falando! Aí é eu falando e é os outros falando, e aí é que começa a zuada.

"Olhe que casar nessa economia..."

"Olhe que cuidar de um filho hoje em dia..."

"Olhe que o seu futuro..."

Olhe, eu já olhei demais. E vocês, já olharam um cacete veiudo e pulsante da cabeça à base? Já olharam uma xavasca pingando, com a maior gula? Olharam foi porra. Aliás, nem isso. Sabe o que também não olharam? O próprio cu! E daí que lobo casou com coelha? Quem vai levar a pica é você? Sabe que o incômodo talvez até seja por isso. Oh, imundície! Quem diz que essa época é vulgar até os ossos não deve nem sair de casa. A real é que ninguém mais quer gozar, quer mais é cagar regra. Porque hedonismo mesmo é rocheda e tal, mas tem que ter couro, entende? Não vou dizer que não sonho também. No mundo ideal, isso não deveria ser verdade. Ninguém deveria ser de ferro pra viver. Eu mesma não sou. É capaz de ninguém ser. Olhe que se a ciência realmente desse bola para o bem comum, já teria erradicado todas as doenças do sexo. Eu quero é ver alguém inventar uma desculpa quando esse dia chegar.

Mas ei, eu tinha falado da minha mãe, só que eu não sou diferente, sabe? Falo do chão que piso e do que vejo, e eu não vejo muita coisa direito faz tempo — também, com uma barriga dessa na minha frente eu não vejo nem meu priquito!