Morrer aos 40 e pouco não parece tão trágico. É como se a estaca tivesse sido cravada de volta bem no umbigo. Não era como se ele tivesse com o pé na cova, mas também não tava na flor da idade. Por isso é difícil até dizer se a morte chegou cedo, atrasada ou pontual para buscá-lo. O que importa é que ela sempre foi bem-vinda e nem era uma fatalidade tão antiquada pra ele. Antiquado mesmo é eu ter dito "na flor da idade". Os níveis de breguice atingiram patamares nunca antes alcançados. Não que eu não seja, de fato, brega. Ser poeta é quase brega por natureza, agora ser depressivo, por definição, é só triste. Se um forró não te anima, não tem romantismo nenhum aí. Desalento não é flor que se regue. Por outro lado, ele até que escreveu versos animadores quando tinha minha idade. Sabe como eu não me sinto tão brega assim? Porque eu sei que tem gente viva, eu acho, diga-se de passagem, que é brega comigo. Eu tinha ido tomar um gole com uma jandaia bem aprumada hoje mais cedo. Na verdade, eu fui tomar um gole sozinha, mas fiquei ali paquerando ela, por assim dizer. Disse ela que ontem mesmo tinha chegado um casal vindo de Crateús pra tirar uma foto no túmulo. Enquanto isso, eu vim sozinha. O resumo da viagem então é este: visitei meu ídolo e, de quebra, peguei meu atestado de encalhada. Se eu fosse mais ele, e desse mais valor ao poético ato de se lambuzar na autopiedade, teria me agarrado ali mesmo com ele debaixo da terra. Sem antes, é claro, de pegar emprestado os versos de um outro poeta pra forjar uma lápide improvisada dizendo:
"Aqui jaz uma jovem forte
Rara e selvagem
Tome meu corpo, minha embalagem
Todo gasto na viagem"