Sem título
Por Lidia MineiraHoje em dia é até clichê começar um parágrafo com “hoje em dia”. É de cansar o leitor antes de qualquer introdução, o que é um tiro no pé enquanto escritora que espera ser lida. Felizmente, eu não espero ser lida. Não que eu queira fazer pouco caso (como é a moda hoje em dia), mas é que eu escrevo para jornal e ninguém lê jornal hoje em dia. Afinal de contas, o título sempre diz tudo. Por bem ou por mal, o único jornalismo que persiste apesar do cansaço generalizado de hoje em dia é a fofoca. Fofocar não cansa porque é bom, mas transar também é bom, e eu ouvi dizer que hoje em dia o cansaço é tanto que nem transar se transa mais. Portanto, se você que me lê chegou até aqui, acredito que já não preciso mais pedir licença para lhe oferecer esse nobre cansaço que é ler (não que eu queira competir com o cansaço do sexo, é claro).
Enfim, daqui é bom a gente mudar o rumo da coluna. Se eu não mantiver o decoro, os editores quebram a minha mesmo, essa aqui que me dá postura.
Para ser honesta, o compromisso de escrever esta semana já bateu à porta faz algum tempo, e eu ainda nem sei para onde levar as palavras. Pausemos, então, a fazedura desta coluna. É boa prática preservar a integridade de um texto. Enquanto o assunto não chega, podemos conversar, se for possível. Fatalmente comecei escrevendo sobre hoje em dia, essa época maldita em que tudo é produto, incluindo a conversa (então é bom a gente jogar ela fora logo). Já basta as conversas acumuladas nos longos minutos dos podcasts mundo afora, o que é um desrespeito à arte. Isso mesmo, arte. Fiquem sabendo que jogar conversa fora também é arte. Já leram crônica? Ninguém lembra dela hoje, mas foi um gênero muito bem comido da literatura nacional por um tempo. Você encontrava elas engurujadas no marsúpio jornalístico e passava o olho (depois a página). Por ser cria da nossa brasilidade, parecia bagunça, mas era uma bagunça tão refinada que até o alto escalão da literatura descia do panteão para brincar de jornal. Um certo Machado torou muito seu tempo nessas brincadeiras. Eu gostaria de compará-las aos blogposts, mas meu sobrinho contou que isso também já saiu de moda, então vamos deixar as comparações de lado (já basta as varizes me lembrando a idade).
Einstein estava certo quando disse que o tempo era relativo. É necessário repetir isso do mesmo jeito que é necessário repetir que o céu é azul. Saber o que faz o céu ser azul eu não sei, mas confio que hoje em dia os entendidos do assunto já possam nos responder essa dúvida muito bem. Dito isso, talvez não seja surpreendente que eu também não saiba explicar o que fez Einstein afirmar que todo tempo é relativo, embora eu tenha meus palpites. Não entendo de Física, o assunto de Einstein, mas o tempo que você levou do começo desta prosa até aqui foi de menos de cinco minutos, enquanto para mim foram cinco horas.
O tempo é tão relativo que até o assunto está aderindo às modas de hoje em dia e fazendo pouco caso para chegar. Portanto, se me dão licença, irei pesquisar um assunto. É que eu cansei de esperar esse insensato. Pelo bem do meu e do seu tempo, irei eu mesma em busca de um que nos sirva.
Para citar Salomão, “debaixo do sol não há nada novo”. No banquete das pautas, reconheço velhos conhecidos à mesa: violência, política, meio ambiente, trabalho e economia. Há quem diga que essa tal de Inteligência Artificial seja agora a caçulinha dessa grande família, mas eu, como ex-acadêmica, discordo, pois já vi muitos exemplos parecidos com ela ao longo da carreira. Dizem que o problema agora é outro: virou mais uma das ferramentas do canivete suíço da nossa era (o celular) e vai ficar na nossa cola até não sei quando. Aí eu te pergunto: o que é um peido para quem já está todo cagado?
“Mas, Lidia, a IA já está tirando o sustento de quem desenha, pinta, compõe e escreve, assim como você!”
Só mais um dia no paraíso.
Deixando de lado a ironia, espero não ter ofendido nenhum artista, pois nada tenho contra eles (tenho até amigos que são). É lógico que eu também compartilho da revolta. Quem me lê só agora já deve ter percebido que adoro abrir parênteses. Só que, até semana passada, esses parênteses eram aqueles hífens mais espichados, conhecem? Eu sou uma mulher que gosta de coisas longas e exageradas, tipo o travessão, e nessa de ser chegada do travessão acabei sendo acusada de máquina, logo elas que tanto amam coisas curtas e contidas. Precisei mudar meus gostos e deixar o travessão mais ereto e curvado (daí os parênteses). Por algum motivo, esses programas que fazem o computador vomitar palavras também adoram fazer ele regurgitar esse sinal gráfico em específico — como se esses desalmados precisassem de uma pausa para respirar ou dar pitaco. Como sempre, quem segue as regras acaba pagando o pato.
A propósito, falei de gênero? Nenhuma conversa que se preze hoje em dia pode deixar de tratar do gênero. Pode não ter sido a palavra do ano, mas com certeza é a da década. Enquanto ela altera os nervos dos conservadores e a noção de identidade dos mais jovens, a fala e a escrita vão se adaptando para não continuar na malha de acusações. Dizem por aí que nosso idioma é difícil, prolixo, antiquado e até machista. Como estou tratando do meu instrumento de trabalho, é de se esperar que eu me levante em sua defesa, mas hão de concordar comigo que ninguém é mais feminista que a nossa língua. Além de portuguesa, ela só recebe ordens de uma tal de gramática, cujo estatuto convenciona que o pronome dos homens é o mesmo que nada. Por conta disso, solidarizo-me com os não-binários. É verdade que a última flor do Lácio ainda não sabe muito bem como escrevê-los ou chamá-los, mas eu, que a rego todos os dias, tenho o dever de não deixá-los apenas implícitos aqui.
Enfim, é com profundo pesar que acabo de me tocar de que hoje não vai rolar. Não vai rolar assunto. Não vai rolar crônica. Não vai rolar coluna. Não vai rolar nada. O que seria uma baita canalhice da minha parte, não fosse isso tudo apenas uma conversa, não é verdade? Se acha que não vai ter compensações, achou errado, pois eu tenho um presentinho para você que me leu até aqui. Isso mesmo, um presente. É coisa de escritor dar presente para quem lê, sabia? A gente mima e engana na mesma medida. Escolhe cada detalhe do regalo com cuidado, embrulha com fitinha e outras firulas, chega até a colar um cartão assinado, bem-amado, na embalagem. Tudo isso para que o leitor abra, no seu próprio ritmo, uma grande surpresa, lambuzando-se, então, numa sublime catarse. Consegue adivinhar o que é? Consegue adivinhar? É isso mesmo, meu docinho, acertaste em cheio: é esta conclusão que você acabou de ler.
Até a próxima semana.