A alteza tinha uma queda por poetas. O palanque cedo já tinha sido montado para um ato que exigia sua presença, e não muito além do foco da cerimônia, erguiam-se os portões do castelo. Fora ideia dela que ali se inscrevesse um ditado que a havia cativado — o vão entre os opostos é assombrado por um tímido espectro. O autor era um dissidente militar, conhecido desde o século passado por seu breve ofício poético. Dado o comprimento dos dizeres, só mesmo forçando a vista para lê-los, estampados logo abaixo do brasão, entre sulcos decorativos.

— Todos somos gratos pela sua bravura — disse ela, erguendo o ornato que pendia de um cordão forjado em ouro, pesado mais pelo símbolo do que pelo metal.

— Faz tempo que eu não ganho presente — disse o lagarto durante sua tentativa de pôr as mãos na honraria.

— Não é um presente — advertiu a princesa em voz alta, afastando a medalha daqueles dedos de escamas.

Escamas essas que o mundo aprendera a amar.

— Perdoa eu, alteza — disse o réptil, com um sorriso puxado de lado pela malícia. — É a minha primeira vez sendo laçado por uma égua.

Ela pausou a condecoração, pouco antes de finalmente pousar a medalha naquele pescoço bruto. O dragão então desmanchou o sorriso em uma gaitada bem vagabunda bem na frente da realeza.

— Meu Deus, que nojo — deixou ela escapar, com a repulsa claramente desenhada em sua fuça.

Só então concluiu a formalidade.

Dos quatro cantos do mundo era possível testemunhar o aplauso dos súditos, e todos eram gratos pela sua bravura. Apesar das desavenças por parte da princesa, tanto de longe quanto de perto, ainda era muito claro: todos eram gratos pela sua bravura. Mesmo além da capital do reino, qualquer um poderia ouvir a fanfarra e o coral, tocando cantando em alto e bom som o refrão popular: “gratos somos, somos todos, gratos somos pela sua bravura”.