Desorientado e marcado por um inchaço na cabeça, teve a impressão de que acordou com os olhos secos, apesar de estarem muito bem encharcados. Seu pescoço, envolvido pela gola áspera do suéter, parecia estar sendo enforcado. Com a unha, esticou-a, respirou fundo e, com muito prazer, deixou que a calma acariciasse seu tórax. Não poderia pedir mais: estava hospedado no alto de um hotel respeitável na cidade. Não ouviu nada. Os carros lá embaixo pareciam estar de acordo em não buzinar. Novamente, sobre ele e sua cama, roupas amassadas umas sobre as outras. Quando se levantou, acabou chutando uma garrafa de aguardente sem querer. O rótulo bege, onde descansavam desenhos de numerosas folhas verdes, não seria suficiente para fazê-lo lembrar da noite anterior. As pernas doíam; provavelmente andou como um maníaco da paz pela cidade. Agarrou o ar quente e úmido que saía de sua boca, esfregou-o pelo focinho e então levou uma pata e outra até as orelhas, sentindo a mandíbula. Uma acidez aguda entrou em seu nariz; a cauda peluda se arrepiou, como se uma sirene estivesse rasgando os seus ouvidos. Respirou fundo mais uma vez, admirando a penumbra da manhã. A fraca luz de um Sol distante, escondido entre as nuvens rasas, refletia nos vidros dos prédios mais próximos. Lá embaixo, novamente, os carros pareciam brinquedos, dispostos na rua sem nenhuma ordem. Pareciam estar presos em um engarrafamento biruta, no qual um fracassou em passar à frente do outro, terminando em um grande alvoroço. Como não via ninguém nas calçadas, chegou a duvidar de que fosse domingo. Quando agarrou o celular, matou essa dúvida. Seus olhos doeram um pouquinho, agredidos pela tela brilhante às seis e vinte e uma da manhã. Como que em plena quarta-feira a cidade não ia dar sinal de vida? Espremeu os olhos, as lágrimas escorreram pelos cantos, e deixou o par se acostumar com o ambiente.
"Vamos terminar a garrafa", pensou, despejando o conteúdo do recipiente garganta abaixo. Sentiu-se bem; o silêncio era seu verdadeiro companheiro ali. Ele amava o visual do quarto. As paredes, onde um intenso marrom debruçava-se sobre uma grossa faixa branca, eram iluminadas por uma luz amarelo-canário no teto. O soquete da lâmpada também se adequava aos seus gostos. Ficou um tempinho admirando a luz porque sentiu partir dali uma emoção. Pôs os dedos sobre o teclado instalado ao lado de uma cadeira, sustentado por um suporte preto, assim como o restante do instrumento. De início, envolveu a peça com uma paz angelical, mesmo enfiando acordes menores de forma quase sádica. Começou, então, a subir e descer, em busca de satisfação. O céu começava a iluminar o quarto; a penumbra da manhã, entretanto, ainda iria demorar um pouco para dizer adeus. Sentia o som contando a história de uma indomável guerreira saindo de uma floresta após bravas lutas contra criaturas desconhecidas. A armadura cobria seu pelo, selvagem e ardente. Não duvidava nem um pouco de que ela trouxesse muita honra e bravura no peito. Em respeito à personagem, concluiu sua composição sem muitos rodeios.
Conseguiu ouvir o próprio suspiro — o silêncio voltou com uma invisível empolgação.
O medo começou a escalar suas costas. Era questão de tempo até que ele agarrasse o seu pescoço e começasse a estrangulá-lo. Não que fosse necessário: o marrom da parede já parecia sangue e a luz já não iluminava um quarto, mas uma cela. Lá embaixo, novamente, a cidade não dava nenhum sinal de vida. Para Carlos, finalmente estava claro: aquele dia não seria como os outros. Não precisou de silêncio algum para contar isso a ele, mas o ouviu com atenção mesmo assim.