A raposa e o coronel

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— Você não é bem-vinda no Mystery Cuscuz.

Simples assim. Logo de cara. Sem nem gaguejar. O famoso "não é não". Rita pode não ter ganhado o passe do clube, mas ganhou um clássico fedora de aba curta. Da cor do mel, cheirando a usado. O cassaco tinha deixado cair quando bateu a porta na cara dela com gosto de gás. Ela esperou um minuto para que ele voltasse; poderia usar a devolução como pretexto para um último apelo. "Vinte e uma da noite", amostrava-se a hora no relógio. Os dois, na beira da calçada, um casal cheio de sem-vergonhice. A hora e o relógio, cada qual mais indecente. Nem pareciam o Mystery Cuscuz, entocado em um prédio antigo no centro do subúrbio da capital. Escondido bem debaixo do nariz da metrópole. Próximo ao aterro. Sem placa nem número. Era o segredo mais bem guardado da cidade.

— E não é que me serviu? — ela se admirava com o mau reflexo de si numa vitrine.

Voltou para casa no maior charme. Levou o encanto até para o trabalho. Você não teria uma secretária charmosa desse jeito nem se fosse o dono do dinheiro. Entre agendas e reservas, ali estava a burocrata mais encantadora do setor. Uma madame vulpina em sua nine-to-five. Ela era o bicho, e a firma não estava com nada. Blusinha solta, decote e um fedora de aba curta enfeitando o felpudo das orelhas. Ainda da cor do mel, ainda cheirando a usado. Mesmo assim, ela sabia que só ia ser estrela mesmo numa festa de arromba, lá no Mystery Cuscuz.

— Menino Nando — disse ela ao telefone — fale com o dono desse clube que eu quero entrar.

— Maria Rita, sua danada — respondeu uma voz de homem, toda quebradiça e, ao mesmo tempo, toda inteira. — Fale lá com o mano Rojo.

Quem era o tal desse diabo? Um coronel, vê se pode uma coisa dessas? Além de militar, também era louva-deus. Deve ter louvado muitos outros além de Deus para ter o nome que tem. Capaz até de ter louvado com as duas patas, serras, garras ou pinças; enfim, seja lá o que forem essas coisas que eles têm e vendem como mãos. Pelo menos era isso o que Rita pensava de quem tinha platina estrelada no ombro.

— E esse chapéu que não é seu, dona Rita? — ele perguntou, enquanto deixava a dose desaguar no copo claro.

Ela entrou no escritório do ilustre preparada para engolir tudo, exceto desaforo. O inseto, cheio de simpatia, não abençoou aquele copo com um gole de uísque para si. Assentou a garrafa ao lado de um envelope, bem pertinho de um cinzeiro e moveu o copo como pôde para o lado da raposa.

Rita estava um nojo naquela noite. Nem respondeu. Ele nem deu bola, disperso e engurujado na cadeira presidencial do clube. Mal conseguia desembrulhar o envelope, um envelope azul-índigo. Parecia até que o acaso quisesse fazer uma referência. Ela se poupou daquela geriatria e deixou os olhos vagarem um pouco pela sala do aposentado. Entre as antenas desse velho, nada ali parecia ser dele. Era como se cada detalhe que não fosse a textura de muquifo do escritório passava longe de ser propriedade do seu Rojo. Pelo menos era essa a impressão que Rita tinha enquanto julgava os troféus, os fogos e as casacas. De seu juízo só foi poupado o uísque mesmo.

— Vai ou não vai, dona Rita? — perguntou o coronel, por algum motivo meio grogue.

— Até onde eu sei — ela disse, depois de descer um shot goela abaixo — eu não sou bem-vinda no Mystery Cuscuz.

O coronel pareceu pensar no assunto, mesmo que não fosse um luxo que ele pudesse se dar a essa altura do campeonato.

— É aí que você se engana, dona Rita.

Ela ergueu uma sobrancelha, e antes do seu Rojo desmaiar em cima do testamento, ainda meio enfiado no envelope azul-índigo, ele revelou:

— O que você não sabe, dona Rita, é que o Mystery Cuscuz sempre foi bem-vindo em você.

Qualquer um que espiasse pela persiana poderia ver o espanto da raposa. Ela até tirou o chapéu em respeito ao finado.