— Você não é bem-vinda no Mystery Cuscuz.
Simples assim. Logo de cara. Sem nem gaguejar. O famoso "não é não". Rita pode não ter ganhado o passe do clube, mas ganhou um clássico fedora de aba curta. Da cor do mel, cheirando a usado. O cassaco tinha deixado cair quando bateu a porta na cara dela com gosto de gás. Ela esperou um minuto para que ele voltasse; poderia usar a devolução como pretexto para um último apelo. "Vinte e uma da noite", amostrava-se a hora no relógio. Os dois, na beira da calçada, um casal cheio de sem-vergonhice. A hora e o relógio, cada qual mais indecente. Nem pareciam o Mystery Cuscuz, entocado em um prédio antigo no centro do subúrbio da capital. Escondido bem debaixo do nariz da metrópole. Próximo ao aterro. Sem placa nem número. Era o segredo mais bem guardado da cidade.
— E não é que me serviu? — ela se admirava com o mau reflexo de si numa vitrine.
Voltou para casa no maior charme. Levou o encanto até para o trabalho. Você não teria uma secretária charmosa desse jeito nem se fosse o dono do dinheiro. Entre agendas e reservas, ali estava a burocrata mais encantadora do setor. Uma madame vulpina em sua nine-to-five. Ela era o bicho, e a firma não estava com nada. Blusinha solta, decote e um fedora de aba curta enfeitando o felpudo das orelhas. Ainda da cor do mel, ainda cheirando a usado. Mesmo assim, ela sabia que só ia ser estrela mesmo numa festa de arromba, lá no Mystery Cuscuz.