Clarke pode ter ditado as leis da robótica, mas foi Ralphson quem impusera o mandamento primordial: a nuance é inatingível à máquina.

Todos os convidados faziam-se presentes de alguma forma, enquanto ele delegava isso à sua própria reputação. Havia se deixado afundar tanto na cadeira que chegava a parecer um pônei. Ele queria muito agarrar um dos copos à disposição na mesa com seus cascos. O problema era fazer isso com muito cuidado para não ser notado. Em casa até que levava jeito com isso, agora em público era outra história.

— Lembrando que é nossa tarefa não deixar o doutor Ralph de fora — disse Moe ao microfone.

O cavalo sorriu. Não dava a mínima para o diálogo. Nem queria estar ali pra começo de conversa. O mais intrigante é que todo mundo sabia disso. Conquistar essa reverência talvez até tenha sido seu maior triunfo como PhD. Seu título só não ia salvá-lo de Moe, segurando o copo com canudinho para que bebesse um gole.

Depois de uma humilhação dessas, seu trabalho seminal bem que poderia ter sido uma contribuição para sua espécie de crina, ao invés de ter sido um desserviço à espécie de lata. Talvez tivesse sido um avanço científico de igual ou maior valor.

O universo segundo Ralphson é como o jardineiro de Peter Sellers, enquanto nós somos os abobalhados concedendo coerência a um sujeito tão desprovido de pretensões. Sua falecida esposa, que foi um milagre em sua vida, os deuses lhe tiraram. Sua filha, um outro milagre tão misericordioso quanto à mãe, eles também lhe tiraram. Talvez fosse difícil resistir a tentação de acrescentar um versículo novo ao livro de Gênesis estando em sua pele. Por que não coroar o silício como o novo neurônio e ser o mais novo Criador do pedaço? Porque a melhor solução para um problema costuma ser sempre a mais fácil, por isso foi melhor seguirmos o mandamento de Ralphson e deixar o cérebro vivo continuar sendo essa criatura solitária no cosmo.

Seu maior insulto nem foi contra os deuses, mas contra as máquinas; sua verdadeira blasfêmia foi provar na linguagem delas que as mesmas nunca provariam de uma fatia sequer da singularidade. Aliás, isso tudo em nome de uma paixão — como deixara claro na dedicatória de seu trabalho. Ele era o Armando para os computadores: o viúvo que estilhaçou a realidade, escalou os cacos até os deuses e contrariou todas as linhas do estatuto celestial.

Enquanto Newton estava sobre ombro de gigantes, Ralphson estava sob a sombra de um mito.

— Alguém teria uma pergunta ao nosso ilustre? — perguntou Moe ao público, em grande parte jovem; lê-se: perdido.

"Ilustre é você", pensou Ralphson com suas ferraduras. Nada era mais aterrador para alguém como ele do que uma Moe. Todo bicho de pena sabe ser amostrado, mas nisso Moe dava aula, e não só nisso como em outros campos, já que era professora.

— Eu tenho uma pergunta — soou do microfone montado para a plateia.

Era um pintassilgo. Ele parecia muito aceso mesmo mergulhado na penumbra do auditório. Se Moe, que era uma ema — três letras na etiqueta e na estampa — já fazia um show, aquele ali, com suas onze, seria uma autêntica supernova.

— E se eu me apaixonar por um Serv?

Ah, os Servs. A aposta era grande e o próximo ano prometia, como todo negócio, aliados a uma soberba quase análoga à imodéstia acadêmica que deu luz a esses androides.

Uma mula e um cavalo até podem deitar juntos, mas seria escandaloso um ser vivo compartilhar a intimidade com circuitos integrados. Ralphson devia ter levado divagações como essa a sério na época em que desenvolvia as equações que lhe consagrariam — isso sim era uma ideia dos anjos! Nem perdeu a chance de acrescentar o seguinte àquele seu velho mandamento:

— A nuance e o tesão são inatingíveis à máquina.

Agora a isso eles deram valor.

— Só mais uma pergunta, professor! — clamou o jovem, com o bico risonho.

"Aí quer fazer graça", deduziu Ralphson. Era preciso temer um estudante do mesmo jeito que se temia um jornalista. Precisou até citar o divino para sair dessa.

— Armando, você está dispensado! — disse Ralphson, como se ele próprio não fosse o viúvo da história.