Doriane era um filhote que lia por conveniência quando era cabrito. Sua casa era abarrotada de livros; o que fazer, então, senão lê-los? O bodinho também escrevia quase todos os dias. Quase sempre anotações. Sua aspiração poética? Talvez Doriane nunca vá saber se era a covardia ou a preguiça. Preguiça de aprender a erguer, por vias de fato, o mundo que casualmente projetava na cuca. Covardia diante de qualquer forma ou volume. Talvez a fraqueza fosse tanta que preferia chamar as cores pelo nome do que despejar o balde de tinta no papel.
Cedo entrou em uma escola técnica para domar o encosto nosso de cada dia: o computador. O que era para ter sido um prólogo de seu ofício, serviu de pretexto para montar uma porteira que leva ao seu próprio mundo; ou seja, uniu-se o útil ao desagradável. No frigir dos ovos, ele preparava uma gororoba com o próprio repertório para servir ali um universo muito seu. Um universo surreal, às vezes sombrio, outrora devasso, mas acima de tudo: cheio dos seus caprichos. Apesar da ignorância, ele sabia que no princípio era o Kafka, e o Kafka estava com o modernismo, e o modernismo era cinema. O que ele não sabia é que houve um bode enviado dos arcefaunos, cujo nome era Doriane. Talvez esse bode nunca vá saber se tudo o que fez foi fruto do dever ou da vocação.
"E se eu for um Jesus pessoal?", pensava ele de vez em quando. Era um leve pressentimento seu: o de que só era bode mesmo porque era o expiatório. O mero desavisado que assinou uma autoria prometida a outrem, como se tivesse sido uma bala perdida. Talvez Doriane nunca vá saber se isso é bom ou ruim. Depois de tanto torcer a realidade com suas linhas, talvez não haja prosa de sobra para ressignificar seu fardo. Um pouco de lirismo até que cairia bem, mas viver é um prato cheio e as palavras não dão conta de temperar tudo.
Resumo da ópera: vida longa a Doriane.