Giovanni Rossi viveu na Itália do século XVII. Se você morasse aqui por esta via, iria conhecê-lo como Tito. Ele era um veado, pintava quadros e sabia muito bem que passaria fome no primeiro vacilo. Ele também engravidou uma das mulheres mais ricas da península, mas isso fica só entre nós.
Tito queria ser que nem as grandes peças do xadrez artístico. Quem sabe inventar um novo movimento para ser estudado até depois de amanhã. Para a vida, isso tudo era o de menos. Seus problemas começavam com o fato de ser veado e não ter aquela graça que é tão própria do seu tipo; e pioravam ainda mais com o fato de ser macho, mas não ter nada de viril. Em vez de nascer com fascínios nativos do gênero — meras variantes daquilo que conhecemos simplesmente como "poder" —, Tito veio ao mundo na ânsia de transar com a arte.
A família lamentava: um desperdício de linhagem. Os amigos também: um disperdício de galhada. Até quem nem de nome o conhecia: um disperdício de tutano. Enfim, uma desgraça de gente e de bicho — um desperdício de macho.
Para ir à luta no mundo, precisou soterrar as ambições que tinha com o seu próprio ofício; mais precisamente, embaixo da mesa, pois em cima precisava pôr o que comer. Não será preciso se delongar nas alternativas, até porque não havia como: Tito só podia fazer arte. Era tudo o que ele era além da carne e do chifre.
Foi por isso que ele uniu o bom com o feio e se tornou o artista da fantasia alheia. As cores até se repetiam, mas nunca o que pintavam: traição a céu aberto, macrogenitálias, tentáculos sebosos e digestão à la ofidiana eram uma das muitas aspirações libidinais que vez ou outra precisava retratar na tela.
Mas, é claro, tanto o sagrado quanto o profano tinham cada um seu tempo.
Pois bem, no quinto dia da semana da revivescência, apareceu um piá de asa perguntando seu nome e ofício.
"É tu quem a condessa procura", disse o menino, coçando de leve a queratina do bico.
Encomendas em dia santo eram até blasfêmia. As cerimônias sempre solicitavam o que quer que fosse de imagem sacra com uma antecedência pontual, fazendo do mês que passou não só uma grande consagração do divino, como também da arte. Agora, uma bênção a mais não faz mal, vinda da condessa, ainda? Havia temores maiores que o Altíssimo.
Tito nem sentiu a culpa pesar enquanto subia o morro da Bodoni.
"Tito?", perguntou a condessa, estendendo a pata.
Ele só confirmou depois de se curvar para cumprimentá-la. Não chegou nem a encostar a boca, mas havia um cheiro tão forte impregnado naquelas mãos que conseguia sentir o gosto de alguma iguaria. Lembrava-o do chocolate que recebera como pagamento de um ferreiro certa vez.
Mesmo com a própria condessa o convidando para entrar, sentiu-se um invasor. Chamar o palacete daquela mulher de casa diminuiria a nossa própria. Já da entrada, ele via o quão longe toda a mansão se estendia. Foi guiado só com o olhar da ricaça por cada escadaria, cada passagem de cômodo e cada corredor. Para alguém como ele, cada passo que dava ali o encolhia cada vez mais, e isso ficou mais claro quando chegou a um aposento dominado por um espelho.
Admirava apenas de relance o reflexo da condessa, sentada no canapé estofado. São momentos assim que fazem jus ao ditado do poeta: o vão entre os opostos é assombrado por um tímido espectro. Tito não sabia o que tinha naquela mulher que o atraía tanto quanto o intimidava, tanto é que ele nem conseguia dizer a qual espécie ela pertencia. Até nos mínimos detalhes do tecido e das joias que ela usava, a própria parecia um dos mobiliários de luxo que possuía.
Mal tinha terminado de se instalar para começar os trabalhos, quando ouviu:
"Não quero que pinte em tela."
Teria a condessa se confundido?
"Onde hei de pintar, então?"
"Em mim."
Teria Tito se confundido?
"E o que queres que eu pinte em ti?"
"Um filho."
Talvez fosse por isso que trabalhar em dia santo fosse pecado.
Tito só desceu o morro quando a tarde já estava nas últimas. Ah, da falta que já devia fazer aquele espírito. Chegou em casa com o couro ainda ardendo no fogo que sobrou do momento. Quem é que não gosta de sentir o coração bater naquele compasso que só o desejo sabe ditar? Agora, gostoso mesmo era o recibo que ele havia ganhado com essa memória — tinha até cheiro de chocolate. Imagine só a fartura dele nos próximos meses.
Até que enfim tinha valido a pena virar artista.